segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Meu Homem

          Fico admirada ao ver como algumas mulheres reclamam dos seus homens. Querem subjugá-los e que venham rastejando aos seus pés pedindo amor. Que tenham olhos só para elas e lhes prestem contas de todos os seus passos. Ao sinal de qualquer indisposição neles, se irritam, se fecham e nos importunam.
           Eu não. Alegro-me quando o meu volta, mesmo que tarde; e agradeço a Deus que tenha voltado.
           É com a maior disposição que me levanto para preparar-lhe a comida. Enquanto esquenta a gordura, lavo meu rosto e passo um batom leve para não aparecer de cara limpa e sonolenta. Abro uma cerveja e tomamos juntos. Como ele é romântico e me faz agrados! Sabe que eu gosto de lhe fazer companhia na janta e por mais que beba na rua com os amigos, deixa sempre um espaço para tomar mais uma comigo. E fala todo dengoso "Ponha mais para você, fiinha, que eu já bebi muito."
           Quando vez ou outra ele chega bem de madrugada e diz que já comeu para não me importunar, eu fico só um pouquinho chateada, incômodo. Às vezes, coitado, chega de mansinho, pé ante pé, com receio de me despertar. Mas o meu sono é leve e eu grito do quarto "Se preocupa não, bem, que estou acordada."
           Imagine se eu vou querer como a vizinha, que ele fique preso na minha saia e me fale pra todo canto que vá. Fale se quiser porque eu nunca questionei. A hora que chegar, chegou, porque a casa é dele. Às vezes, quando ele chega cedo, pergunto se ainda vai sair, não questionando ou recriminando, mas para ver se é preciso passar uma camisa ou lustrar um sapato, porque não vou deixar meu homem sair de qualquer jeito por aí, sujeito a um amigo insinuar ou pensar que a sua mulher é uma vadia que não cuida de suas roupas. É o único reclamo meu. "Passe aqui e ponha outra muda de roupa para não sair com cheiro de suor do dia."
          Nunca o procuro. Deixo-o à vontade. Quando ele quiser, estou disposta e cheirosa, toda dele. E ele sabe muito bem.
          Outro dia uma dona me veio falar que viu meu homem num bar junto com umas vadias. Fiquei brava. Falei-lhe uns desaforos e a pus pra fora. Disse-lhe que ela era muito enxerida, e que tinha graça! Além de infernizar a vida do seu marido, que eu sei muito bem que inferniza, ainda vir envenenar a minha mente com ideias de gente doida!
          Acordei, ele do meu lado dormia sorrindo, parecendo que lia meu sonho. Dei-lhe um safanão. "É assim que você queria que eu fosse, não é, seu desavergonhado? Uma Amélia ou então me encanasse vendo os textos da Adélia Prado e ficasse toda contente e pronta a receber suas ordens. Já foi o tempo, meu caro. Agora um dia eu faço a janta, no outro você. Se quiser sair para se divertir, um dia eu olho os filhos, no outro, você. Os direitos são iguais e se não quiser assim rua." Ele olhou-me sonolento e assustado e eu falei firme " É isto mesmo!" e me virei para o lado querendo dormir e desejando que viesse um sonho diferente.

Laé de Souza.

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